Exposição “Wide-Angle View: Architecture as social space in the Manplan series 1969–70” inaugura na Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos (Copy)

 

Fotografia ©Egídio Santos/ SR-NRT

 
 

Inauguração da exposição “Wide-Angle View

A Arquitetura como Espaço Social na Série Manplan 1969–70” reúne arquitetos, investigadores e estudantes na Ordem dos Arquitectos

PT/ENG

A inauguração da exposição Wide-Angle View: A Arquitetura como Espaço Social na Série Manplan 1969–70, que teve lugar no passado dia 27 de fevereiro, na sede da Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos (OASRN), reuniu um público numeroso e diversificado, confirmando o interesse que a iniciativa tem vindo a suscitar junto da comunidade académica, profissional e cultural.

Entre arquitetos, investigadores, parceiros institucionais e público em geral, destacou-se particularmente a forte presença de estudantes, que acompanharam com grande atenção os diferentes momentos da sessão de abertura e, sobretudo, a visita guiada realizada pela curadora de fotografia do Royal Institute of British Architects (RIBA), Valeria Carullo. A visita revelou-se um dos momentos altos da inauguração, tendo gerado um diálogo vivo com os estudantes, que participaram de forma ativa, colocando diversas questões e debatendo as problemáticas levantadas pela série Manplan.

A exposição resulta de uma colaboração internacional que envolve o RIBA, a Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos, a Associação Cultural Cityscopio e o CENP/FAUP — Centro de Estudos Nuno Portas, através do grupo de investigação Arquitetura, Arte e Imagem (AAI) e do projeto editorial e científico Sophia Journal, atualmente no seu 11.º volume. Esta rede internacional de colaboração evidencia a importância das parcerias entre instituições, áreas disciplinares e investigadores, criando plataformas de diálogo e reflexão sobre questões urgentes da contemporaneidade e aproximando a investigação académica da sociedade.

Produzida originalmente entre 1969 e 1970 pelo periódico The Architectural Review, a série Manplan surgiu num momento de profunda crise das promessas do modernismo. Ao deslocar o foco da arquitetura enquanto objeto para a arquitetura enquanto espaço social vivido, a série permitiu desenvolver uma consciência crítica sobre os problemas que marcavam a vida urbana da época — muitos dos quais permanecem hoje surpreendentemente atuais. Ao colocar as pessoas no centro da imagem, e não apenas os edifícios, Manplan ampliou o campo de visão sobre a prática e o pensamento arquitetónico.

Nesse sentido, o conceito de wide-angle view surge não apenas como um recurso técnico da fotografia, mas como um dispositivo crítico e uma posição ética perante a arquitetura. Ampliar o campo de visão significa reconhecer que cada decisão espacial tem consequências concretas nos modos de habitar, na qualidade de vida e nas possibilidades de futuro das cidades. Num contexto marcado por uma crise profunda da habitação e por crescentes processos de fragmentação urbana, esta perspetiva crítica revela-se particularmente pertinente — e urgente.

A exposição assume igualmente um significado especial no contexto do ensino da arquitetura e, em particular, no papel da fotografia nos currículos das escolas de arquitetura, como acontece na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP). Mais do que um simples instrumento de registo, a fotografia é aqui entendida como uma ferramenta de pensamento, capaz de analisar, questionar e reinterpretar as realidades visíveis. A imagem torna-se, assim, um espaço de investigação que atravessa fronteiras disciplinares e permite compreender — e potencialmente transformar — a realidade.

Mais do que um exercício de revisitação histórica, Wide-Angle View propõe-se como um dispositivo ativo de leitura do presente. Nesse sentido, estabelece também um diálogo direto com a chamada aberta e a conferência internacional do Sophia Journal, prevista para setembro deste ano, dedicada ao tema “Paisagens de Reparação | A Cidade Invisível: Manplan e Formas Contemporâneas de Reparação”, aprofundando as questões críticas levantadas pela exposição.

A mostra permanecerá patente na sede da Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Norte até maio, sendo acompanhada por um programa paralelo que incluirá novas visitas guiadas, debates e mesas-redondas dedicadas às diferentes temáticas levantadas pela exposição. Estas iniciativas procurarão prolongar a reflexão iniciada na inauguração e ampliar o debate sobre o papel da arquitetura, da imagem e da cidade na sociedade contemporânea.

MANIFESTO
Da Manplan à crise da habitação: ampliar o campo de visão

A arquitetura nunca foi neutra. Nunca foi apenas forma, técnica ou estilo. É um campo de forças onde se inscrevem conflitos sociais, escolhas políticas e visões do mundo. A série Manplan (1969–1970) tornou essa condição explícita num momento em que as promessas do modernismo entravam em crise e a realidade urbana expunha, de forma incontornável, as falhas de um projeto social incompleto. Cinquenta anos depois, essa lucidez crítica não perdeu atualidade — tornou-se urgente.

Hoje, perante uma crise global da habitação, a financeirização do território, a exclusão crescente e a fragmentação das cidades, importa recuperar e atualizar o gesto radical de Manplan: olhar a arquitetura a partir da vida, e não o inverso. Colocar as pessoas no centro da representação e do pensamento arquitetónico. Reconhecer que cada decisão espacial produz efeitos reais sobre corpos, relações, desigualdades e possibilidades de futuro. “Wide-Angle View: Architecture as social space in the Manplan series 1969–70” | SR-NRT uma mostra inédita em Portugal que revisita a influente série Manplan, afirma-se nesse território de continuidade crítica.

Não como uma exposição nostálgica, mas como um dispositivo de leitura do presente. O arquivo não é aqui um lugar fechado, mas um campo ativo de investigação, capaz de iluminar as tensões contemporâneas. As imagens de Manplan — cruas, próximas, incómodas — continuam a interpelar-nos porque revelam uma verdade persistente: a cidade é vivida antes de ser desenhada, e a habitação é um direito antes de ser um produto.

A lente grande-angular que dá título à exposição é mais do que um recurso técnico. É uma posição ética e política. Ampliar o campo de visão significa recusar leituras simplificadas da realidade urbana, rejeitar soluções rápidas para problemas estruturais e confrontar a disciplina com as consequências sociais do seu próprio fazer. Significa aceitar que a arquitetura participa ativamente na produção de desigualdade, mas também que pode — e deve — ser instrumento de reparação.

Entre a Manplan e o presente estende-se uma linha de continuidade: a compreensão da arquitetura como prática inevitavelmente política. A crise da habitação não é um acidente, mas o resultado de escolhas acumuladas — de modelos económicos, de legislação, de planeamento e de cultura disciplinar. Perante isso, não basta projetar mais edifícios; é necessário repensar os modos de habitar, os regimes de propriedade, as formas de cooperação e os imaginários urbanos que sustentam a cidade contemporânea.

Wide-Angle View convoca arquitetos, estudantes, investigadores e cidadãos a assumir uma posição. A olhar para o arquivo não como repertório formal, mas como memória crítica. A reconhecer na fotografia não apenas um meio de representação, mas uma forma de pensamento. A compreender que toda a imagem é uma tomada de posição — e que toda a arquitetura comunica, mesmo quando pretende silenciar os seus efeitos.

Este manifesto afirma que a relevância de Manplan reside precisamente na sua recusa da indiferença. Na sua capacidade de expor o desconforto, de tornar visíveis as falhas do sistema e de insistir que a qualidade de vida é uma questão coletiva. Hoje, como então, a arquitetura só faz sentido se for pensada a partir da vida concreta, das suas fragilidades e das suas urgências.

Ampliar o campo de visão é, por isso, um compromisso com o presente. Um convite à ação crítica. Uma exigência de responsabilidade disciplinar. Entre arquivo e atualidade, entre imagem e projeto, entre arquitetura e sociedade, “Wide-Angle View: Architecture as social space in the Manplan series 1969–70” | SR-NRT  afirma que não há futuro habitável sem um olhar atento, informado e profundamente humano sobre a cidade que construímos.

Pedro Leão Neto

Maria Neto

Mais informação em breve nos canais da SR-NRT, CNEP - FAUP e CCA.