Aula aberta e visita guiada à exposição Wide-Angle View reúne estudantes de Arquitetura da UFP na OASRN

 
 
 

Aula aberta e visita guiada à exposição Wide-Angle View reúne estudantes de Arquitetura da UFP na OASRN

No passado dia 29 de abril, a sede da Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Norte acolheu uma aula aberta e visita guiada à exposição “Wide-Angle View: A Arquitetura como Espaço Social na série Manplan 1969–70”, numa iniciativa realizada em colaboração com o Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade Fernando Pessoa (UFP).

A sessão reuniu estudantes e docentes da UFP num momento de contacto direto com a exposição, promovendo uma reflexão crítica em torno das relações entre arquitetura, fotografia e sociedade. A visita foi conduzida por Pedro Leão Neto, docente e investigador da FAUP e membro do grupo de investigação Arquitetura, Arte e Imagem (AAI) do Centro de Estudos Nuno Portas (CENP), e por Maria Neto, investigadora do mesmo grupo, contando ainda com a participação de um representante da Ordem dos Arquitectos – Secção Regional Norte.

A acompanhar os estudantes estiveram Sara Sucena, Professora Associada do Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade Fernando Pessoa, cuja participação contribuiu para aprofundar o debate em torno da imagem enquanto instrumento de leitura crítica da arquitetura e da cidade.

Ao longo da visita, a exposição foi apresentada como um espaço de reflexão sobre o papel da fotografia na construção de discursos críticos sobre o território e o espaço construído. Inspirada na série Manplan, publicada pela revista The Architectural Review entre 1969 e 1970, a exposição propõe uma deslocação do olhar da arquitetura enquanto objeto autónomo para a arquitetura enquanto espaço social vivido, centrando-se nas relações humanas, nos contextos urbanos e nas condições que moldam a experiência quotidiana.

A noção de wide angle foi discutida como uma ampliação do campo de visão sobre a arquitetura, permitindo compreender de que modo a imagem pode revelar dinâmicas sociais, desigualdades territoriais e transformações urbanas frequentemente ausentes das representações convencionais da disciplina.

As fotografias e materiais apresentados — provenientes do arquivo da Architectural Press / RIBA Collections — evidenciam uma abordagem visual próxima do fotojornalismo e da fotografia de rua, cruzando temas como habitação, trabalho, educação, saúde e lazer. Neste contexto, a fotografia foi abordada simultaneamente enquanto documento e construção crítica, capaz de registar a realidade e, ao mesmo tempo, de produzir novas formas de interpretação sobre a cidade contemporânea.

Ao longo do percurso expositivo foram promovidos momentos de diálogo e discussão, incentivando os estudantes a refletir sobre a atualidade das questões levantadas por Manplan, particularmente num contexto marcado pela crise da habitação, pelas desigualdades urbanas e pelas transformações sociais do território.

A sessão terminou com um debate alargado entre participantes, reforçando a importância destas iniciativas no âmbito do ensino, da investigação e da cultura arquitetónica. Ao aproximar os estudantes de práticas expositivas e curatoriais contemporâneas, a aula aberta sublinhou o papel da fotografia enquanto ferramenta de investigação, pensamento crítico e comunicação no campo da arquitetura e da cidade.

Programa da Exposição Wide-Angle View

A exposição “Wide-Angle View: A Arquitetura como Espaço Social na série Manplan 1969–70” apresenta uma seleção de fotografias e materiais provenientes do arquivo da Architectural Press / RIBA Collections, revisitando a influente série publicada pela revista The Architectural Review no final da década de 1960.

Produzida num contexto de profundas transformações sociais e urbanas, Manplan marcou uma rutura na cultura editorial da arquitetura ao colocar as pessoas e os contextos sociais no centro da representação arquitetónica, abordando temas como habitação, saúde, trabalho, educação e lazer através de narrativas visuais inspiradas no fotojornalismo e na fotografia de rua.

A exposição resulta de uma parceria internacional entre o Royal Institute of British Architects (RIBA), a Ordem dos Arquitetos – Secção Regional Norte, a Associação Cultural Cityscopio (CCA) e o CENP/FAUP – Centro de Estudos Nuno Portas, através do grupo de investigação Arquitetura, Arte e Imagem (AAI) e do projeto editorial e científico Sophia Journal.

Mais do que uma exposição histórica, Wide-Angle View afirma-se como um dispositivo de reflexão contemporânea sobre as relações entre arquitetura e sociedade, particularmente relevante num contexto marcado pela crise da habitação, pelas transformações do espaço urbano e pelas desigualdades territoriais.

Durante o período em que estará patente na sede da Ordem dos Arquitetos – Secção Regional Norte, a exposição será acompanhada por um programa paralelo de visitas guiadas, conversas públicas e ações educativas, dirigido a estudantes, investigadores, arquitetos e ao público em geral.

Estas iniciativas procuram promover novas leituras críticas sobre a cidade contemporânea, sublinhando o papel da fotografia e da imagem enquanto instrumentos fundamentais de pensamento e investigação sobre o espaço arquitetónico e urbano.

MANIFESTO
Da Manplan à crise da habitação: ampliar o campo de visão

A arquitetura nunca foi neutra. Nunca foi apenas forma, técnica ou estilo. É um campo de forças onde se inscrevem conflitos sociais, escolhas políticas e visões do mundo. A série Manplan (1969–1970) tornou essa condição explícita num momento em que as promessas do modernismo entravam em crise e a realidade urbana expunha, de forma incontornável, as falhas de um projeto social incompleto. Cinquenta anos depois, essa lucidez crítica não perdeu atualidade — tornou-se urgente.

Hoje, perante uma crise global da habitação, a financeirização do território, a exclusão crescente e a fragmentação das cidades, importa recuperar e atualizar o gesto radical de Manplan: olhar a arquitetura a partir da vida, e não o inverso. Colocar as pessoas no centro da representação e do pensamento arquitetónico. Reconhecer que cada decisão espacial produz efeitos reais sobre corpos, relações, desigualdades e possibilidades de futuro. “Wide-Angle View: Architecture as social space in the Manplan series 1969–70” | SR-NRT uma mostra inédita em Portugal que revisita a influente série Manplan, afirma-se nesse território de continuidade crítica.

Não como uma exposição nostálgica, mas como um dispositivo de leitura do presente. O arquivo não é aqui um lugar fechado, mas um campo ativo de investigação, capaz de iluminar as tensões contemporâneas. As imagens de Manplan — cruas, próximas, incómodas — continuam a interpelar-nos porque revelam uma verdade persistente: a cidade é vivida antes de ser desenhada, e a habitação é um direito antes de ser um produto.

A lente grande-angular que dá título à exposição é mais do que um recurso técnico. É uma posição ética e política. Ampliar o campo de visão significa recusar leituras simplificadas da realidade urbana, rejeitar soluções rápidas para problemas estruturais e confrontar a disciplina com as consequências sociais do seu próprio fazer. Significa aceitar que a arquitetura participa ativamente na produção de desigualdade, mas também que pode — e deve — ser instrumento de reparação.

Entre a Manplan e o presente estende-se uma linha de continuidade: a compreensão da arquitetura como prática inevitavelmente política. A crise da habitação não é um acidente, mas o resultado de escolhas acumuladas — de modelos económicos, de legislação, de planeamento e de cultura disciplinar. Perante isso, não basta projetar mais edifícios; é necessário repensar os modos de habitar, os regimes de propriedade, as formas de cooperação e os imaginários urbanos que sustentam a cidade contemporânea.

Wide-Angle View convoca arquitetos, estudantes, investigadores e cidadãos a assumir uma posição. A olhar para o arquivo não como repertório formal, mas como memória crítica. A reconhecer na fotografia não apenas um meio de representação, mas uma forma de pensamento. A compreender que toda a imagem é uma tomada de posição — e que toda a arquitetura comunica, mesmo quando pretende silenciar os seus efeitos.

Este manifesto afirma que a relevância de Manplan reside precisamente na sua recusa da indiferença. Na sua capacidade de expor o desconforto, de tornar visíveis as falhas do sistema e de insistir que a qualidade de vida é uma questão coletiva. Hoje, como então, a arquitetura só faz sentido se for pensada a partir da vida concreta, das suas fragilidades e das suas urgências.

Ampliar o campo de visão é, por isso, um compromisso com o presente. Um convite à ação crítica. Uma exigência de responsabilidade disciplinar. Entre arquivo e atualidade, entre imagem e projeto, entre arquitetura e sociedade, “Wide-Angle View: Architecture as social space in the Manplan series 1969–70” | SR-NRT  afirma que não há futuro habitável sem um olhar atento, informado e profundamente humano sobre a cidade que construímos.

Pedro Leão Neto

Maria Neto

Mais informação em breve nos canais da SR-NRT, CNEP - FAUP e CCA.