Entre documento e discurso: a fotografia como campo crítico na leitura da arquitetura

 
 
 

Entre documento e discurso: a fotografia como campo crítico na leitura da arquitetura

No passado dia 9 de abril, a sede da Ordem dos Arquitetos – Secção Regional Norte acolheu uma aula aberta e visita guiada à exposição “Wide-Angle View: A Arquitetura como Espaço Social na série Manplan 1969–70”, numa iniciativa realizada em colaboração com a Escola Superior de Media Artes e Design (ESMAD / P.PORTO).

A sessão reuniu estudantes e docentes do curso de Fotografia, num momento de contacto direto com a exposição que evidenciou o interesse pelas interseções entre imagem, arquitetura e sociedade. A visita foi conduzida por Pedro Leão Neto, docente e investigador da FAUP, e por Maria Neto, investigadora do grupo Arquitetura, Arte e Imagem (AAI) do Centro de Estudos Nuno Portas, contando ainda com a participação de um representante da Ordem dos Arquitetos. Estiveram igualmente presentes Olívia Marques da Silva e Sérgio Rolando, docentes da ESMAD, cujas intervenções sublinharam a relevância do ensino da fotografia na atualidade e o seu potencial enquanto dispositivo crítico de leitura da realidade.

Ao longo da visita, a exposição foi abordada não apenas enquanto objeto histórico, mas como um dispositivo ativo de reflexão, em sintonia com o espírito da série Manplan. A noção de wide angle — enquanto ampliação do campo de visão sobre a arquitetura — foi explorada como uma forma de deslocar o olhar do edifício isolado para os contextos sociais, políticos e territoriais que o enquadram.

Neste sentido, a fotografia foi discutida nos seus dois modos de intervenção. Por um lado, enquanto função documental, assumindo-se como registo visual que, embora mediado por um olhar situado, permite evidenciar e sustentar uma leitura informada da realidade, em articulação com outras ferramentas de análise, como a cartografia ou os dados estatísticos. Por outro, enquanto função discursiva, afirmando-se como linguagem autónoma capaz de construir narrativas críticas, explorar relações e questionar o real para além da sua mera representação.

A exposição evidenciou precisamente esta dupla condição da imagem: simultaneamente documento e interpretação, evidência e construção. As séries apresentadas, oriundas do arquivo da Architectural Review, revelam uma abordagem que cruza o fotojornalismo e a fotografia de rua para dar visibilidade a temas como a habitação, o trabalho ou a saúde, propondo uma leitura da arquitetura enquanto espaço social vivido.

Ao longo do percurso, foram promovidos momentos de diálogo e discussão, nos quais os estudantes foram convidados a refletir sobre a atualidade das questões levantadas por Manplan, bem como sobre o papel da fotografia na construção de uma perceção crítica das problemáticas urbanas contemporâneas, nomeadamente no contexto das desigualdades e da precariedade habitacional.

A sessão terminou com um debate alargado, confirmando o interesse suscitado e a pertinência destas iniciativas no contexto do ensino e da investigação. Ao aproximar os estudantes de práticas expositivas e curatoriais, esta aula aberta reforçou a importância da fotografia enquanto instrumento de investigação, pensamento crítico e comunicação no campo da arquitetura e da cidade.

Programa da Exposição Wide-Angle View

A exposição resulta de uma colaboração internacional liderada pelo RIBA, que foi responsável pela curadoria e pela apresentação das suas coleções, em estreita parceria com instituições sediadas no Porto, incluindo a Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitetos, a Associação Cultural Cityscopio e o CENP/FAUP – Centro de Estudos Nuno Portas, através do grupo de investigação Arquitetura, Arte e Imagem (AAI) e do projeto Sophia Journal. Esta colaboração destaca o papel central do RIBA na promoção do diálogo internacional, ao mesmo tempo que fortalece as ligações com as instituições académicas e culturais locais, criando uma plataforma que liga a investigação, a prática curatorial e o envolvimento do público.

Originalmente produzida entre 1969 e 1970 pela revista The Architectural Review, a série Manplan é aqui revisitada através da perspetiva curatorial do RIBA, recorrendo à riqueza das suas coleções para reformular o material para o público contemporâneo. Ao privilegiar a fotografia como meio crítico e ao colocar as pessoas – em vez dos edifícios – no centro da narrativa, a exposição reflete o compromisso contínuo do RIBA em expandir o discurso arquitetónico e tornar as suas coleções acessíveis e relevantes para um público mais vasto através de parcerias internacionais como esta, no Porto.

A exposição apresenta assim uma seleção de fotografias e materiais provenientes do arquivo da Architectural Press / RIBA Collections, com origem na série publicada pela revista The Architectural Review produzida num contexto de profundas transformações sociais e urbanas. Manplan marcou uma rutura na cultura editorial da arquitetura ao colocar as pessoas e os contextos sociais no centro da representação arquitetónica, abordando temas como habitação, saúde, trabalho, educação e lazer através de narrativas visuais inspiradas no fotojornalismo e na fotografia de rua.

Mais do que uma exposição histórica, Wide-Angle View afirma-se como um dispositivo de reflexão contemporânea sobre as relações entre arquitetura e sociedade, particularmente relevante num contexto marcado pela crise da habitação, pelas transformações do espaço urbano e pelas desigualdades territoriais.

Durante o período em que estará patente na sede da Ordem dos Arquitetos – Secção Regional Norte, a exposição será acompanhada por um programa paralelo de visitas guiadas, conversas públicas e ações educativas, dirigido a estudantes, investigadores, arquitetos e ao público em geral.

Estas iniciativas procuram promover novas leituras críticas sobre a cidade contemporânea, sublinhando o papel da fotografia e da imagem enquanto instrumentos fundamentais de pensamento e investigação sobre o espaço arquitetónico e urbano.

MANIFESTO
Da Manplan à crise da habitação: ampliar o campo de visão

A arquitetura nunca foi neutra. Nunca foi apenas forma, técnica ou estilo. É um campo de forças onde se inscrevem conflitos sociais, escolhas políticas e visões do mundo. A série Manplan (1969–1970) tornou essa condição explícita num momento em que as promessas do modernismo entravam em crise e a realidade urbana expunha, de forma incontornável, as falhas de um projeto social incompleto. Cinquenta anos depois, essa lucidez crítica não perdeu atualidade — tornou-se urgente.

Hoje, perante uma crise global da habitação, a financeirização do território, a exclusão crescente e a fragmentação das cidades, importa recuperar e atualizar o gesto radical de Manplan: olhar a arquitetura a partir da vida, e não o inverso. Colocar as pessoas no centro da representação e do pensamento arquitetónico. Reconhecer que cada decisão espacial produz efeitos reais sobre corpos, relações, desigualdades e possibilidades de futuro. “Wide-Angle View: Architecture as social space in the Manplan series 1969–70” | SR-NRT uma mostra inédita em Portugal que revisita a influente série Manplan, afirma-se nesse território de continuidade crítica.

Não como uma exposição nostálgica, mas como um dispositivo de leitura do presente. O arquivo não é aqui um lugar fechado, mas um campo ativo de investigação, capaz de iluminar as tensões contemporâneas. As imagens de Manplan — cruas, próximas, incómodas — continuam a interpelar-nos porque revelam uma verdade persistente: a cidade é vivida antes de ser desenhada, e a habitação é um direito antes de ser um produto.

A lente grande-angular que dá título à exposição é mais do que um recurso técnico. É uma posição ética e política. Ampliar o campo de visão significa recusar leituras simplificadas da realidade urbana, rejeitar soluções rápidas para problemas estruturais e confrontar a disciplina com as consequências sociais do seu próprio fazer. Significa aceitar que a arquitetura participa ativamente na produção de desigualdade, mas também que pode — e deve — ser instrumento de reparação.

Entre a Manplan e o presente estende-se uma linha de continuidade: a compreensão da arquitetura como prática inevitavelmente política. A crise da habitação não é um acidente, mas o resultado de escolhas acumuladas — de modelos económicos, de legislação, de planeamento e de cultura disciplinar. Perante isso, não basta projetar mais edifícios; é necessário repensar os modos de habitar, os regimes de propriedade, as formas de cooperação e os imaginários urbanos que sustentam a cidade contemporânea.

Wide-Angle View convoca arquitetos, estudantes, investigadores e cidadãos a assumir uma posição. A olhar para o arquivo não como repertório formal, mas como memória crítica. A reconhecer na fotografia não apenas um meio de representação, mas uma forma de pensamento. A compreender que toda a imagem é uma tomada de posição — e que toda a arquitetura comunica, mesmo quando pretende silenciar os seus efeitos.

Este manifesto afirma que a relevância de Manplan reside precisamente na sua recusa da indiferença. Na sua capacidade de expor o desconforto, de tornar visíveis as falhas do sistema e de insistir que a qualidade de vida é uma questão coletiva. Hoje, como então, a arquitetura só faz sentido se for pensada a partir da vida concreta, das suas fragilidades e das suas urgências.

Ampliar o campo de visão é, por isso, um compromisso com o presente. Um convite à ação crítica. Uma exigência de responsabilidade disciplinar. Entre arquivo e atualidade, entre imagem e projeto, entre arquitetura e sociedade, “Wide-Angle View: Architecture as social space in the Manplan series 1969–70” | SR-NRT  afirma que não há futuro habitável sem um olhar atento, informado e profundamente humano sobre a cidade que construímos.

Pedro Leão Neto

Maria Neto

Mais informação em breve nos canais da SR-NRT, CNEP - FAUP e CCA.