LFA Talks — Publicar um Prémio, Prolongar um Legado: Fotografia, Arquitetura e a Vida Cultural de um Prémio

 

By Gabriel Poças | Centro de Cultura U.T. Porto

 
 

LFA Talks — Publicar um Prémio, Prolongar um Legado: Fotografia, Arquitetura e a Vida Cultural de um Prémio

IIntegradas no programa paralelo da 11.ª Conferência Internacional da Sophia Journal, as LFA Talks reuniram diferentes vozes em torno da fotografia de arquitetura, da edição e das possibilidades de transformar um prémio internacional numa plataforma cultural mais ampla

PT/ENG

Luis Ferreira Alves International Photography Competition | A Contemporary Look at Architecture 2026

No dia 26 de setembro, a 11.ª Conferência Internacional da Sophia Journal — Landscapes of Repair: The Invisible City — Manplan and Contemporary Forms of Repair deslocou-se para o Centro de Cultura da Universidade Técnica do Porto — UTP, onde decorreu o seu programa paralelo, alargando a conferência para além das discussões de carácter mais diretamente científico do dia anterior e abrindo-a a questões relacionadas com a edição, a circulação pública das imagens e a construção da memória e do legado.

No centro da manhã esteve uma nova sessão das LFA Talks — Publicar um Prémio, Prolongar um Legado, desenvolvida a partir da primeira edição do Luis Ferreira Alves International Photography Competition | A Contemporary Look at Architecture e da publicação que dela resultou.

A sessão foi antecedida por uma breve apresentação da segunda edição do Prémio por Pedro Leão Neto, que recordou que o projeto nasceu como uma homenagem a Luis Ferreira Alves, mas nunca pretendeu ter um carácter exclusivamente retrospetivo. A sua ambição passa também por prolongar uma determinada cultura do olhar sobre a arquitetura, incentivando os fotógrafos não apenas a produzir imagens de arquitetura formalmente conseguidas, mas a construir séries fotográficas coerentes e autorais, capazes de propor uma leitura própria de um edifício, de um conjunto de obras ou de uma determinada condição arquitetónica.

A dimensão alcançada pela primeira edição — 1.495 submissões provenientes de 99 países, das quais resultaram dez séries finalistas, prémios e menções, uma exposição e uma publicação — constituiu um importante ponto de partida para a conversa. A segunda edição mantém esta dimensão internacional, com um novo júri constituído por Paolo Rosselli, Valeria Carullo e João Pedro Serôdio, introduzindo simultaneamente o Prémio de Fotografia Emergente Portuguesa.

Mas a apresentação procurou também dar particular destaque a algo que ultrapassa o próprio concurso: a rede de pessoas e instituições que torna possível um projeto desta natureza.

A Câmara Municipal do Porto e a Cityscopio — Associação Cultural são as entidades promotoras do LFA Award, enquanto a sua estrutura organizativa reúne as entidades promotoras, a FAUP e a Casa da Arquitectura. Em torno deste núcleo existe uma rede mais ampla de patrocinadores e parceiros estratégicos e institucionais, que inclui o BPI / Fundação “la Caixa”, J. Soares Correia, CCDR-N, Metro do Porto, AMAG, panoramah!, Ordem dos Arquitectos, Instituto Marques da Silva e Fundação de Serralves.

Como Pedro Leão Neto sublinhou na sua introdução, esta dimensão colaborativa é fundamental: um legado desta natureza não pode ser construído por uma única instituição. Pelo contrário, o Prémio vai progressivamente ganhando forma através das relações que estabelece entre fotografia, arquitetura, investigação, edição e diferentes instituições culturais.

Foi precisamente a partir deste entendimento mais amplo que se desenvolveu a sessão Publicar um Prémio, Prolongar um Legado.

Moderada por Jorge Sobrado, Vereador da Cultura e Património da Câmara Municipal do Porto, a conversa reuniu Hugh Campbell, Cristina Gastón, Judit Taberna Torres e Gabriel Hernández, cujas diferentes experiências académicas, editoriais e críticas permitiram cruzar perspetivas particularmente ricas sobre fotografia, arquitetura e edição. Desde o início, a intenção não foi organizar uma sucessão de apresentações individuais, mas criar uma verdadeira conversa em torno da mesa.

Jorge Sobrado imprimiu à sessão um ritmo vivo e envolvente. Movendo-se com naturalidade entre o humor e questões mais exigentes, criou um ambiente informal em que os investigadores e autores convidados puderam sentir-se à vontade e, simultaneamente, ser desafiados a abordar temas por vezes difíceis. As suas perguntas funcionaram mais como pontos de partida do que como conclusões, circulando entre os diferentes participantes e abrindo-se a trocas mais amplas em torno da mesa. O resultado foi uma conversa dinâmica, que acabou também por envolver o público nas questões em discussão.

Algumas perguntas aparentemente simples revelaram-se particularmente produtivas. Que perfil poderá hoje definir melhor um fotógrafo de arquitetura? O que distingue alguém que fotografa arquitetura de um autor que utiliza a fotografia para interrogar a arquitetura? E o que acontece quando a interpretação do fotógrafo deixa de coincidir com a imagem que a arquitetura — ou o arquiteto — gostaria de projetar?

A partir daqui, a discussão avançou para o universo autónomo e crítico da fotografia. A fotografia de arquitetura não tem necessariamente de confirmar o discurso da própria arquitetura. Pode introduzir distância, ambiguidade e até desconforto. Precisamente porque a fotografia constrói o seu próprio ponto de vista, pode revelar usos, contradições, condições sociais e relações inesperadas que a representação arquitetónica poderá preferir deixar fora do enquadramento. Nesse sentido, a fotografia pode, por vezes, incomodar tanto a arquitetura como os arquitetos — mas é também através dessa independência que pode dar um contributo mais significativo para a cultura arquitetónica.

Este tornou-se um dos fios condutores mais interessantes da conversa: a fotografia não apenas como meio de comunicar a arquitetura, mas como forma de pensar a arquitetura de outro modo.

Foi precisamente neste campo alargado que o LFA Award foi discutido. Em vez de terminar com a seleção dos vencedores, o projeto tem vindo progressivamente a gerar outras formas através das quais as fotografias e as ideias podem continuar a circular: a publicação, as exposições, os podcasts, as LFA Talks, o trabalho de arquivo e outras iniciativas editoriais e públicas. Em conjunto, estas diferentes componentes começam a constituir uma plataforma cultural na qual o concurso representa um momento de um processo mais longo de investigação, discussão e disseminação.

A publicação LFA Award: A Contemporary Look at Architecture constituiu, por isso, um importante ponto de partida para a conversa, mas não o seu limite. O livro permitiu colocar a questão do que acontece a um prémio depois de terminado o momento competitivo: como podem os trabalhos fotográficos selecionados permanecer ativos; de que modo a edição pode estabelecer novas relações entre eles; e como pode um prémio gerar progressivamente um arquivo, debate crítico, circulação internacional e continuidade cultural.

É também neste ponto que a ideia de prolongar um legado adquiriu um significado mais amplo. O legado de Luis Ferreira Alves não é entendido apenas através da preservação e do estudo da sua obra fotográfica, por mais importantes que sejam, mas também através da possibilidade de ativar as questões que essa obra continua a suscitar e de criar condições para que novos fotógrafos desenvolvam formas independentes de olhar para a arquitetura, a cidade e o território.

Como Pedro Leão Neto sugeriu no início da sessão, existe uma continuidade entre prémio, publicação, arquivo e território: diferentes formas, interligadas entre si, de construir, preservar e, sobretudo, ativar um legado.

A manhã prosseguiu com Cidade de Todos | Ver Fotografia, com os fotógrafos Aníbal Lemos e José Manuel Rodrigues, numa conversa moderada por Olívia Marques da Silva. Complementando as questões levantadas durante as LFA Talks, esta segunda mesa-redonda orientou-se mais diretamente para a fotografia enquanto forma de compreender a experiência humana no interior da arquitetura e da cidade.

Através do trabalho e da reflexão dos fotógrafos, a atenção deslocou-se da arquitetura enquanto objeto autónomo para as formas como as pessoas habitam, se apropriam e atribuem significado aos espaços. A fotografia surgiu, uma vez mais, como algo que ultrapassa a representação: como um meio de aproximação à vida quotidiana, à memória e às relações através das quais a arquitetura passa a fazer parte da experiência individual e coletiva.

Em conjunto, as duas conversas conferiram ao programa paralelo o seu carácter particular. Partindo de diferentes posições perante a fotografia, partilharam uma convicção de fundo: a de que a fotografia pode fazer mais do que descrever a arquitetura. Pode interrogá-la, interpretá-la, tornar visíveis outras realidades e criar um espaço onde a arquitetura possa ser discutida de forma mais aberta e aprofundada.

Para o LFA Award, esta poderá ser, em última análise, uma das dimensões mais importantes do projeto: não apenas reconhecer trabalhos fotográficos relevantes, mas construir progressivamente uma plataforma cultural através da qual a arquitetura possa ser vista, interrogada e discutida de forma diferente através da fotografia.

 

LFA Talks — Publishing an Award, Extending a Legacy: Photography, Architecture and the Cultural Life of an Award

 

By Gabriel Poças | Centro de Cultura U.T. Porto

 
 

LFA Talks — Publishing an Award, Extending a Legacy: Photography, Architecture and the Cultural Life of an Award

Integrated into the parallel programme of the 11th Sophia Journal International Conference, the LFA Talks brought together different voices around architectural photography, publishing and the possibilities of transforming an international award into a wider cultural platform.

PT/ENG

Luis Ferreira Alves International Photography Competition | A Contemporary Look at Architecture 2026

On 26 September, the 11th Sophia Journal International Conference — Landscapes of Repair: The Invisible City — Manplan and Contemporary Forms of Repair moved to the Culture Centre of the Technical University of Porto — UTP for its parallel programme, opening the conference beyond the more directly scientific discussions of the previous day towards publishing, the public circulation of images, and the construction of memory and legacy.

At the centre of the morning was a new session of LFA Talks — Publishing an Award, Extending a Legacy, developed around the first edition of the Luis Ferreira Alves International Photography Competition | A Contemporary Look at Architecture and the publication that emerged from it.

The session was preceded by a brief presentation of the Award's second edition by Pedro Leão Neto, who recalled that the project was created as a tribute to Luis Ferreira Alves, but was never intended to be solely retrospective. Its ambition is also to extend a particular culture of looking at architecture, encouraging photographers not simply to produce accomplished architectural images, but to construct coherent and authorial photographic series capable of proposing their own reading of a building, a group of works or a particular architectural condition.

The scale reached by the first edition — 1,495 submissions from 99 countries, leading to ten finalist series, prizes and mentions, an exhibition and a publication — provided an important background to the conversation. The second edition maintains this international dimension with a new jury composed of Paolo Rosselli, Valeria Carullo and João Pedro Serôdio, while also introducing the Portuguese Emerging Photography Award.

But the presentation also placed particular emphasis on something that extends beyond the competition itself: the network of people and institutions that makes such a project possible.

The Porto City Council and Cityscopio — Associação Cultural are the promoting bodies of the LFA Award, while its organisational structure brings together the promoting bodies with FAUP and Casa da Arquitectura. Around this core is a wider network of sponsors and strategic and institutional partners, including BPI / “la Caixa” Foundation, J. Soares Correia, CCDR-N, Metro do Porto, AMAG, panoramah!, the Portuguese Architects’ Association, the Marques da Silva Foundation Institute and the Serralves Foundation.

As Pedro Leão Neto underlined in his introduction, this collaborative dimension is fundamental: a legacy of this nature cannot be constructed through a single institution. DISCURSO_A5_DIA_26_V04_24_09_20… Instead, the Award is gradually taking shape through relationships between photography, architecture, research, publishing and different cultural institutions.

It was precisely from this broader understanding that Publishing an Award, Extending a Legacy developed.

Moderated by Jorge Sobrado, Porto City Councillor for Culture and Heritage, the conversation brought together Hugh Campbell, Cristina Gastón, Judit Taberna Torres and Gabriel Hernández, whose different academic, editorial and critical experiences created a particularly rich combination of perspectives on photography, architecture and publishing. The intention from the outset was not to stage a succession of individual presentations, but to create a genuine conversation around the table.

Jorge Sobrado gave the session an energetic and engaging rhythm. Moving easily between humour and more demanding questions, he created an informal atmosphere in which the invited researchers and authors could feel at ease while being challenged to address sometimes difficult issues. His questions became starting points rather than endpoints, moving between individual participants and opening into wider exchanges around the table. The result was a lively conversation that also drew the audience into the questions being discussed.

Some apparently simple questions proved particularly productive. What kind of profile might best characterise an architectural photographer today? What distinguishes someone who photographs architecture from an author who uses photography to question architecture? And what happens when the photographer's interpretation no longer coincides with the image that architecture — or the architect — might wish to project?

From there, the discussion moved towards the autonomous and critical universe of photography. Architectural photography does not necessarily have to confirm architecture's own discourse. It can introduce distance, ambiguity and even discomfort. Precisely because photography constructs its own point of view, it can reveal uses, contradictions, social conditions and unexpected relationships that architectural representation may prefer to leave outside the frame. In this sense, photography can sometimes make both architecture and architects uneasy — but it is also through that independence that the medium can contribute most meaningfully to architectural culture.

This became one of the most interesting threads running through the conversation: photography not simply as a means of communicating architecture, but as a way of thinking architecture differently.

The LFA Award was discussed within precisely this expanded field. Rather than ending with the selection of winners, the project has progressively generated other forms through which photographs and ideas can circulate: the publication, exhibitions, podcasts, LFA Talks, archival work and other editorial and public initiatives. Together, these different components are beginning to constitute a cultural platform in which the competition is one moment within a longer process of research, discussion and dissemination.

The publication LFA Award: A Contemporary Look at Architecture was therefore an important point of departure for the conversation, but not its limit. The book raised the question of what happens to an award after the competitive moment has passed: how selected photographic works can remain active; how publishing can establish new relationships between them; and how an award can gradually generate an archive, critical debate, international circulation and cultural continuity.

This is also where the idea of extending a legacy acquired a wider meaning. The legacy of Luis Ferreira Alves is not understood only through the preservation and study of his photographic work, important as that is, but through the possibility of activating the questions it continues to raise and creating conditions for new photographers to develop independent ways of looking at architecture, the city and territory.

As Pedro Leão Neto suggested at the beginning of the session, there is a continuity between award, publication, archive and territory: different but interconnected ways of constructing, preserving and, above all, activating a legacy.

The morning continued with A City for Everyone | Seeing Photography, with photographers Aníbal Lemos and José Manuel Rodrigues, moderated by Olívia Marques da Silva. Complementing the questions raised during the LFA Talks, this second round-table turned more directly towards photography as a way of understanding human experience within architecture and the city.

Through the photographers' work and discussion, attention shifted from architecture as an autonomous object towards the ways people inhabit, appropriate and give meaning to spaces. Photography appeared once again as more than representation: as a means of approaching everyday life, memory and the relationships through which architecture becomes part of individual and collective experience.

Together, the two conversations gave the parallel programme its particular character. They approached photography from different positions but shared an underlying conviction: that photography can do more than describe architecture. It can question it, interpret it, bring other realities into view and create a space in which architecture can be discussed more openly and profoundly.

For the LFA Award, this may ultimately be one of the most important dimensions of the project: not simply recognising significant photographic work, but gradually creating a cultural platform through which architecture can be seen, questioned and discussed differently through photography.