BAIRRO DA CARCEREIRA
VOL I: CENÁRIO ANTES DE LUGAR - UM ESPAÇO EM ESPERA
GESTO ARQUITETÓNICO
FACT 2025|26
Anastácia Mandryka | Catarina Torres | Zhao Yue Tong
“A cidade. Imensa
Cruzada por traçados diversos,
Neles condensa fragmentos
Que formam um outro universo.”
Quatro maciços de betão impõem-se às frentes segmentadas das ruas, tão diferentes na volumetria, cor e escala, uniformizando essa variedade com a brancura das suas fachadas. Põem ordem à desordem através da monocromia, simetria, repetição - marcas basilares da arquitetura siziana. Acompanhando a extensão das fachadas, surge o receio de cair no limite da monotonia que no momento é quebrada pela descontinuidade dos volumes. Deparamo-nos com a permeabilidade do limite por eles traçado. Recantos que convidam à deriva, à promenade arquitetónica, à descoberta paulatina de um refúgio a meio do bulício da cidade - o Bairro da Carcereira.
O geometrizado e o cartesiano acolhem algo mais natural e orgânico. O logradouro. O coração verde do bairro. Atravessado por caminhos sinuosos, vem desafiar a linearidade, não impondo a ordem certa para conhecer o lugar. Oferece ao observador uma pluralidade de cenários para o seu momento de deambulação, a escolha do seu próprio ritmo de aproximações e afastamentos e a construção de inúmeras perceções do mesmo espaço.
A simplicidade dos blocos brancos de betão convida à procura da exceção na regra. Pequenos detalhes enriquecem o conjunto, transcendendo o limite entre o arquitetónico e o escultórico. A perfeição é alcançada pelo desafiar da proporção volumétrica, pelo jogo de luz-sombra, pela relação com a envolvente.
Todas estas temáticas procuram ser objeto de exploração do volume I, cujo objetivo passa por transmitir a essência da arquitetura na sua forma mais pura e objetiva. O rigor compositivo e a precisão dos enquadramentos são umas das estratégias que alicerçam a concretização da narrativa visual deste bloco e para a qual a obra de Luís Ferreira Alves e, sobretudo, o seu olhar disciplinar e simultaneamente poético serviram de grande inspiração. Na mesma linha de pensamento, a obra de Candida Höfer mostrou-se exemplar no modo como realça o poder dos elementos mais básicos e fundamentais da fotografia que permitem manipular o olhar do observador para aspetos arquitetónicos específicos. Por exemplo, a predominância de pontos de fuga centrais e amplos campos de visão, como na série fotográfica Semper Oper Dresden II (2023), publicada pela Galerie Rüdiger Schöttle, permite apreender a amplitude e a monumentalidade dos espaços, ferramenta usada no trabalho para realçar a dimensão do logradouro. Revelando-se notavelmente discretas, as suas fotografias recorrem, maioritariamente, à não inclusão da figura humana, estratégia que também foi explorada a fim de atingir um outro nível de abstração.
“In my photographs, I speak of silence and distance. For me, it is fundamental that the atmosphere, the light, and the colors are grasped.”
“It became apparent to me that what people do in these spaces – and what these spaces do to them – is clearer when no one is present, just as an absent guest is often the subject of a conversation”.
Candida Höfer

