O OLHO TÁTIL

Rúben Vieira


Desenvolvido no âmbito da minha dissertação de mestrado e do curso de formação contínua “Fotografia como ferramenta de investigação do espaço urbano”, o projeto fotográfico O Olho Tátil foi desenvolvido, entre Fevereiro e Junho de 2026, nas instalações do canal ferroviário de Espinho que, na sequência de obras de requalificação recentes, passou a ser vulgarmente designado como ReCaFE (Requalificação do Canal Ferroviário de Espinho).

Trata-se de um exercício operativo realizado através do suporte digital, mas submetido a um sistema de constrições técnicas e estéticas inspirado na prática de Hélène Binet: a amputação do contexto através do enquadramento, o silenciamento da luz absoluta pela penumbra e a reconstrução mental do espaço a partir da abstração do fragmento. A realização deste ensaio foi precedida por uma vivência demorada do ReCaFE, vagueando e sentindo o espaço arquitetónico antes de qualquer disparo; recusei deliberadamente o registo facilitado e ilimitado que o sensor digital permite, onde atrás de cada disparo existe uma intenção corporal prévia.

Ao selecionar esta obra do atelier RDLM como campo de ensaio, procuro a crueza de um edifício que, por se encontrar despido de pele comercial e acabamentos, expõe o seu osso tectónico com uma agressividade que a arquitetura pacificada e "lisa" do mercado tende a esconder.

No ReCaFE, procurei na cofragem de betão aparente a resistência material necessária para quebrar a receção pelo hábito diagnosticada por Walter Benjamin. Através do uso de um grão fotográfico denso e da exploração de uma luz rasante que enfatiza a rugosidade da matéria, a câmara atua como o instrumento capaz de extrair o "inconsciente ótico" de Benjamin, revelando a espessura que a retina anestesiada tende a ignorar.