Um outro olhar sobre Obras de Álvaro Siza Vieira

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Um outro olhar sobre Obras de Álvaro Siza Vieira

50.00

Um outro olhar sobre Obras de Álvaro Siza Vieira
Fotografia Documental e Artística: Um Olhar Contemporâneo sobre a Arquitectura Portuguesa

(ed.) Pedro Leão Neto

Apresentação por Jorge Figueira

Em “Álvaro Siza: Fotografia Documental e Artística. Um Olhar Contemporâneo sobre a Arquitectura Portuguesa”, Pedro Leão Neto apresenta-nos o resultado do seu pós-doutoramento: uma leitura exigente e fundamentada do ubíquo tema da fotografia de arquitectura, e, mais especificamente, da fotografia na arquitectura portuguesa. PLN levanta e recoloca em discussão temas que são obrigatórios para pensar em arquitectura: a relação umbilical entre o advento da arquitectura moderna e a fotografia; a fotografia como uma das coordenadas da teoria da arquitectura contemporânea; e, como caso de estudo, e “projecto fotográfico”, a arquitectura portuguesa representada por quatro obras de Álvaro Siza, fotografada por quatro jovens autores.

Deve-se ter em conta que o trabalho já extenso de PLN não tem só uma dimensão ensaística, de matriz histórica ou teórica, mas visa uma componente de levantamento que está patente no projeto de Mapeamento de Fotografia Documental e Artística (MFDA-ARP), como o próprio explica nas páginas seguintes deste livro. E, de facto, o “diálogo” – talvez mesmo a intersecção – entre a fotografia e a arquitectura portuguesa, crescendo exponencialmente a partir dos anos 1950, merece um olhar atento e uma componente arquivística que faça justiça aos heroicos arquitectos e fotógrafos que teceram uma cultura que agora justificadamente se investiga, debate e celebra.

Lembro esse momento exacto que são as fotografias de Nuno Teotónio Pereira do Mercado de Santa Maria da Feira de Fernando Távora; um arquitecto- fotógrafo a capturar uma arquitectura feliz no tempo e no espaço. Depois, como PLN descreve aprofundadamente, o trabalho de Luís Ferreira Alves é central e decisivo, no seu modo moderno de deixar a modernidade falar na obra de Siza: linhas horizontais e verticais dir-se-ia reforçadas, assertivamente geométricas; volumes construídos sob a luz, sempre algo melancólica do Atlântico português; os Bancos de Siza transformados em templos; as casas fragmentadas reerguidas no enquadramento da fotografia; o preto e branco como se o mundo fosse preto e branco. PLN deixa claro a importância da fotografia de Ferreira Alves para a arquitectura portuguesa. Diria que tantas vezes é o último colaborador de Siza ou talvez o primeiro habitante da obra que nos abre a porta, em permanência. É uma montagem, uma narrativa, como outras, mas tão próxima de uma “verdade” em arquitectura que perdura como gesto solitário, afinal, plenamente artístico na sua contenção documental.

No ensaio de PLN, para lá das referências a vários autores, retenho ainda as reflexões sobre Fernando Guerra, e, no domínio mais próximo da arte contemporânea, sobre Paulo Catrica e André Cepeda. Sobre Guerra, PLN refere-se ao carácter eminentemente controverso da sua abordagem, rompendo com a tradição “disciplinar” de Ferreira Alves. Desaparece a discrição – e a descrição – e entra uma apoteose da natureza onde a arquitectura se insere, como parte disruptiva ou amena do enquadramento. Guerra não só abre o panorama até ao céu; exponencia a quantidade de vezes que a obra é fotografável (continuamente) e habita o espaço com fantasmas; não a porta aberta para um espaço silencioso e vazio por onde entramos discretamente mas a aparição de figuras espectrais que estão em movimento dentro e fora da fotografia. É irresistível pensarmos que Ferreira Alves está para a elegância moderna, cujo objecto é a revista de arquitectura, como Fernando Guerra para a saturação pós-moderna, cujo objecto é o aparato digital. No domínio explicitamente artístico, o trabalho de Paulo Catrica é anotado com rigor por PLN, em particular a beleza quase insuportável, deliberadamente cruel, das vistas urbanas; e em André Cepeda, vindo da arte contemporânea, a transformação do detalhe arquitectónico em motivo plástico museugrafado.

Particularmente conseguido em “Álvaro Siza: Fotografia Documental e Artística. Um Olhar Contemporâneo sobre a Arquitectura Portuguesa” são os “projectos fotográficos”: o trabalho de Sofia F. Augusto sobre o edifício da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto; de Helder Sousa sobre a Casa de Chá da Boa Nova; de Sérgio Rolando sobre a Piscina da Quinta da Conceição e de Marta Ferreira sobre a Piscina das Marés.

Sofia F. Augusto preenche os planos ou interstícios da Faculdade de Arquitectura com um excesso de sombras, orgânicas, geométricas; objectos encontrados; pessoas sem coreografia; tralha: consegue simultaneamente desmistificar e recriar uma beleza insólita na obra de Siza. Helder Sousa reintroduz a Casa de Chá com uma limpidez (dos planos) e uma rugosidade (das rochas) como nunca a tínhamos visto, mesmo depois de tanto tempo; fotografias sintéticas, determinadas, quase matemáticas. O trabalho de Sérgio Rolando sobre a Piscina da Quinta da Conceição transporta-nos directamente para a herança nórdica, aaltiana, de Siza, o que é emocionante: um lugar recriado por uma arquitectura despojada; a natureza sublimada por algumas poucas paredes brancas. O portfolio de Marta Ferreira sobre a Piscina das Marés é um thriller. Nunca sabemos que Piscina vai surgir na próxima página: discreta, arruinada, esquecida, estival, alegre, quase chocante nas rochas com musgo do tanque vazio.

No conjunto, os quatro trabalhos acrescentam e aprofundam a proposta de PLN, com um forte efeito. Esta investigação consegue assim não só colocar a fotografia como parte integral e fundamental da história recente da arquitectura portuguesa, como instigar um novo olhar que é partilhado pelos quatro fotógrafos convidados.

E, é claro, motivar questões que o Pedro Leão Neto, com a sua infatigável motivação e paixão pela fotografia – e pela arquitectura –, irá continuar a responder. Nomeadamente, se há uma fotografia documental que não seja artística e uma artística que não seja documental...

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